Política, Futebol, Dogmatismo (Texto de outubro de 2010)

Quando assistimos as propagandas eleitorais, parece inevitável sentirmos um misto de se divertir e de se ofender: de se divertir, pelas idiotices que os candidatos fazem em suas campanhas; de se ofender, por sermos tratados, incessantemente, como idiotas.

De fato, chegamos a um ponto tal que a campanha virou propaganda, e a propaganda virou marketing. A qualquer um que pare por um segundo sequer para pensar em algumas das principais estratégias utilizadas para se ter votos, fica logo claro que elas nada têm a ver com política. São apenas meios de sedução, de encanto, de enfeitiçamento dos eleitores para que se possa obter o seu voto. O que os jingles eleitorais têm a nos dizer sobre as propostas do candidato? Geralmente, absolutamente nada. Mas, mesmo supondo que algum deles tivesse algo para dizer: por que dizê-lo na forma de jingle? A escolha da forma denuncia a finalidade do conteúdo: seduzir, em vez de persuadir. A campanha eleitoral como um todo pode facilmente se resumir a isso: sedução dos eleitores. O que não significa que a persuasão não esteja presente em nenhum momento, mas sim que ela foi relegada ao segundo plano. O principal, o tom da campanha não é o da persuasão, mas sim, sempre e invariavelmente, a sedução – a tal ponto que mesmo por trás da aparente persuasão, encontra-se, freqüentemente, a intenção de seduzir.

Ora, o tom que se dá para a campanha eleitoral é indissociável do tom que se dá para política. E quando assistimos e ouvimos fileiras de deputados que nos oferecem apenas o seu nome e seu número e, não obstante, estão ali, pedindo o nosso voto; quando vemos milhares de placas distribuídas pelas ruas, empregados que balançam monotonamente bandeiras (pense no absurdo: bandeiras!) ao lado de sinais; quando em ambos os casos tudo o que nos é oferecido são números e nomes (acompanhados, é claro, das imagens dos candidatos), mas nunca propostas, como enxergar a política senão como uma simples competição, um jogo onde o principal é atingir a objetivos pré-determinados, e não de que maneira eles são atingidos?

Que outra visão pode-se esperar que o povo em geral tenha da política, quando mesmo especialistas se referem aos debates por meio de analogias com jogos de futebol? E o mais lamentável é que essa comparação seja absolutamente adequada: é um jogo que enxergamos na campanha política; é uma competição desse tipo que vemos quando assistimos a debates; é um comportamento de torcedor de futebol que presenciamos por parte dos eleitores. E não de qualquer torcedor de futebol, mas sim dos piores: dos fanáticos. Um comportamento que se traduz, essencialmente, em um incansável antagonismo, em uma oposição, por princípio, a tudo que “o outro lado” venha a oferecer e propor. É a cegueira de quem só tem os olhos voltados para o seu lado. A afirmação incondicionada do seu próprio lado, à qual corresponde uma negação incondicionada de tudo o que vier do outro, ao menos a princípio (quer dizer, nossa primeira reação, nossa primeira atitude é a de considerar que o outro lado nada tem a nos oferecer).

É fácil imaginar que esse antagonismo seja sempre apenas o fardo do outro, que “nós”, cidadãos “conscientes” e “informados”, estejamos acima de tais desvios. Mas talvez não seja tão simples assim: talvez este antagonismo esteja mais enraizado na política – e em nós – do que gostaríamos de admitir. Afinal, o que significa o partidarismo que norteia nossa política para onde quer que olhemos? Não significa, precisamente, que por trás da estruturação atual da nossa política encontra-se um princípio antagonista, a idéia de uma oposição que seria, a princípio, absolutamente insuperável? Que ou estamos de um lado, ou estamos de outro? Assim, quando nos encontramos na esfera da política, será que não estamos envoltos de tal maneira nessa estrutura que, sem o perceber, somos dogmáticos?

Talvez alguns pensem que, por não aderirem a nenhum partido em específico, estejam livres dessa postura. Entretanto, ela se imiscui em nós de maneiras mais sutis do que essas; de fato, o principal nela não seria, sequer, a adesão a um partido, mas sim, poderíamos dizer, o comportamento ‘partidário’, ou, simplesmente, o dogmatismo ao se adentrar em uma discussão política, ao se defender um ponto de vista, um candidato, um partido. O principal, portanto, é simplesmente a atitude de tomar partido, não no sentido de se tomar uma posição, mas sim de fazê-lo dogmaticamente. De fato, me parece que o problema reside em nossa primeira atitude frente à política e a nossa principal atitude ser dogmática; algo que dificilmente poderia ser diferente, em um contexto no qual a própria estrutura política fundamenta um antagonismo por princípio e o caráter sedutor das campanhas eleitorais faz com que nos sintamos obrigados a escolher o nosso lado e defendê-lo a todo custo. Talvez pudesse expressar melhor o que quero dizer da seguinte maneira: em política, sentimos a necessidade de que nossas posições sejam definitivas. Mesmo quando cedemos, o fazemos a muito custo, já que gostaríamos que nossa posição fosse perfeitamente correta.

Ora, mas não seria tolo criticar isto? Não queremos todos que nossa posição seja definitiva? Não buscamos, sempre, alcançar uma situação em que nossa posição esteja perfeitamente acabada e possa ser permanente? Não cabe aqui discutir se essa é uma necessidade real – para nós, de fato, ela não é -, mas mesmo supondo essa necessidade, há uma larga diferença entre ter como ideal inalcançável uma posição definitiva e idealizar a sua própria posição como definitiva. Infelizmente, parece-nos que em política sobretudo idealizamos nossas posições, e partimos do princípio que elas devem ser de tal maneira idealizadas. Não queremos o definitivo apenas como ideal; queremo-lo encarnado naquilo que defendemos. Queremos que nossa posição seja absolutamente determinante do certo e do errado, absolutamente e irrestritamente verdadeira, que nossa opinião seja dogma, que a nossa posição – sempre parcial, limitada, insuficiente – não tenha limites e deva ser universalmente aceita. Ei-lo, o dogmatismo político. Um dos mais ferrenhos dogmatismos. E também um dos mais universais. Para onde quer que olhemos, a exaltação que não parece faltar a ninguém quando o tema é política é sempre indicativa desse dogmatismo subjacente, é mesmo a sua própria marca; é, a bem da verdade, o tom mesmo do dogmatismo. E nenhum assunto exalta tanto aos ânimos quanto a política.

Mais uma vez, cabe refinar a definição do que é o principal desse dogmatismo, e aquilo a que realmente nos referimos. Este dogmatismo, evidentemente, não precisa ser consciente e não precisa se referir a nenhum conteúdo em específico. Para ser dogmático, não é preciso que se acredite incondicionalmente em qualquer coisa que seja. O dogmatismo não requer a fixação em nenhum conteúdo em específico, de tal maneira que, por mais absurdo que possa parecer, é perfeitamente possível ser dogmático sem se acreditar em nada. Isso se deve ao fato de aquilo que estamos chamando aqui de dogmatismo não ser um conteúdo fixado, mas sim a atitude fixadora. O dogmatismo é uma atitude. É precisamente essa relação frente a um conteúdo que tem como princípio e finalidade a fixação deste; é uma forma de tratarmos este conteúdo. E mesmo quem, em última instância, em nada acredita, pode tratar um conteúdo desta maneira, embora posteriormente passe a desconsiderar essa fixação e mesmo recusar tê-la feito.

Nesse sentido, talvez fique claro agora como a maior parte das pessoas é dogmático em relação à política, ou age principalmente de maneira dogmática. Uma notícia fresca sai sobre um candidato, que o compromete; se somos contra ele, tendemos a acreditar imediatamente e integralmente nessa notícia; se somos a favor, no mesmo instante descartamos a notícia como falsa, ou o fato como mal interpretado. Claro que, se somos minimamente razoáveis, aceitamos, abstratamente, a possibilidade de a notícia estar equivocada, e mesmo de nós estarmos equivocados; mas é só nesse nível que aceitamos. Não vemos como poderíamos estar de fato errados, não enxergamos em lugar nenhum que essa possibilidade seja também concreta. Salvaguardamos nosso dogmatismo arremessando a falibilidade para o lado da abstração.

Poderia haver contraste da nossa atitude frente à política com “a coisa mesma” que ela é? Existiria alguma esfera da existência humana mais permeada de contingências, de equívocos, de mal-entendidos, existira um lugar onde os “fatos” são mais labirínticos, mais codificados, mais irredutíveis e complexos do que na política? Existe uma esfera humana onde o resultado das ações e intervenções seja mais imprevisível, onde seja mais difícil estabelecer um princípio que norteie nossas ações, onde seja mais inviável contar com a reprodutibilidade daquilo que já se foi ou daquilo que é em outro lugar? Onde a formalização contraste mais com a efetividade? Existe, afinal, âmbito da existência humana mais permeado pela complexidade do que a política?

Entretanto, existe atitude mais infantil, mais imatura, mais simplista e elementar do que aquela com que encaramos a política? Existe atitude mais reducionista, mais limitada, mais simples do que a de opor simplesmente uma coisa a outra, bom e mal, esquerda e direita? Existe uma maneira mais prematura de encarar os fatos do que nos atrelando completamente à primeira interpretação que formulamos acerca deles? Existe postura menos adequada para a política do que o dogmatismo que a permeia?

É esse dogmatismo, porém, que encontra bases em todos os lados para se sustentar e se manter na política. Em primeiro lugar, todo o sistema partidário e grande parte daquilo que subjaz a ele tem como conseqüência direta essa atitude frente à política, na qual devemos defender uma posição a todo o custo. Por outro lado influenciando a isso e sendo por isso influenciado, há o sentimento de urgência que se encontra em todos os lados em nosso país, querendo de nós que tomemos partido a todo o custo e cedo demais. Que significa ser jogado, aos 18 anos, para a obrigação de votar? Será que todos com essa idade já possuem maturidade o bastante para votar? Será que faz sentido obrigar a votar quem não se considerar capaz de fazê-lo? Quais são as últimas conseqüências disso? Parece-nos que são as seguintes: reprimi-se majoritariamente justamente a possibilidade de se encarar a política com uma atitude diferente, mais condizente com sua complexidade. Somos muito cedo jogados em um âmbito do qual nada entendemos e, portanto, do qual dificilmente podemos alterar o funcionamento. Passamos, então, a funcionar de acordo com ele. Sem capacidade de pararmos para olhar de longe o dogmatismo com que se age na política, logo somos emaranhados nele e não conseguimos agir de nenhuma outra forma. Ora, não seria melhor se só precisasse votar aquele que se sentisse preparado, não daria isso uma chance para que as pessoas pudessem adentrar a política com uma atitude pensada com mais cautela, e não simplesmente assimilada dos gritos de torcida que é a política atualmente? Não seria melhor, e fundamental para uma boa participação política, buscar cultivar uma atitude mais apropriada para o primeiro encontro com a política, em vez de arremessar-se no escuro sem estar pronto para deparar-se com ela pela primeira vez? Note-se: não estamos querendo dizer que é preciso ter pleno domínio da política antes de adentrar o seu meio; obviamente, isto seria um absurdo. Aquilo a que nos referimos seria uma atitude que permitiria um bom começo, uma boa introdução à política, um princípio a partir do qual seria possível melhor se conduzir nela.

É importante notar que não queremos propor um “ceticismo” político, se por isso se entender que a melhor atitude frente à política é sempre a de suspensão de juízo. Se não devemos ser dogmáticos, há um limite, também para o quanto e como devemos ser céticos. Queremos propor, porém, que se só temos condições de aderir a uma posição de maneira dogmática, então, nesse caso, é melhor suspender o nosso juízo, até o momento em que estejamos em condições de nos posicionar sem fazê-lo dogmaticamente. Infelizmente, o Brasil sempre foi um país com pressa. Achamos que temos que agir o mais rápido possível, que se não agirmos estamos desperdiçando tempo, que todo instante tem que ser “aproveitado” – com o que se quer dizer, na verdade, que devemos querer sempre transformar as coisas no intervalo de tempo o mais breve possível. Mas talvez não seja o caso que o melhor seja, sempre, agir o mais rapidamente possível; talvez o mal, freqüentemente, resida em agir rápido demais. Às vezes, agir cedo significa precipitar-se, e começar tarde salva mais tempo do que começar cedo demais. Parece-nos, assim, que já está na hora de experimentarmos a paciência na política. E, fundamentalmente, a paciência para politizar-se. Se essa paciência é na verdade procrastinação, só cada um pode saber – e só o tempo dirá.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s