Sobre a indecisão dos movimentos de ocupação

Uma das críticas mais frequentes aos movimentos de ocupação que tem surgido por todo o mundo é a de que os manifestantes ‘não sabem o que querem’.  Rebeldes sem causa, reivindicando mudanças sem terem propostas de como fazê-las, os ocupantes teriam sido frequentemente recebidos com irritação e impaciência por aqueles que, diante da indecisão desses manifestantes sobre o que, afinal, eles querem que seja feito, desejariam que eles simplesmente decidissem de uma vez o que fazer.

Contra esse tipo de crítica, já se apontou de diversos modos como essa indecisão, em seu aspecto negativo, isso é, no sentido de não se decidir de imediato sobre aquilo que deve ser feito, é produtiva e essencial em uma série de maneiras. Com efeito, seria ela que permitiria um debate verdadeiramente honesto, uma discussão aberta a novas idéias e possibilidades, que não fosse determinada por pressupostos e preconceitos que se colocariam para além de toda crítica, de todo teste por meio de sua tematização e problematização em um diálogo aberto. Essa indecisão, mesmo em seu aspecto negativo (de não se decidir sobre o que se quer fazer),  não seria negativa (no sentido de ser algo ruim, prejudicial). Muito pelo contrário, essa indeterminação seria fundamental para que, por fim, fosse possível uma política honesta, que não se pautasse por pressupostos ou preconceitos, por idéias ou proposições pré-definidas ou propostas precipitadamente, antes de serem séria e consequentemente avaliadas e debatidas. O fundamental agora não seria tomar uma ação o mais rápido possível; antes, seria tomá-la da melhor maneira possível. Por isso, a prioridade não é ter uma proposta – antes, é a qualidade (poderíamos dizer também, a legitimidade) da proposta que se constrói. Ou, colocado de outra forma: o que importa não é ter uma proposta, mas sim ter uma proposta satisfatória. Dentro desse ponto de vista, parece até mesmo  absurdo mobilizar-se em torno de uma proposta, baseando-se mais na crença nela do que no fato dela ter resultado de um debate extensivo daqueles que se mobilizam em torno dela. Sendo assim, a indecisão desses ocupantes  sobre o que fazer seria essencial para que, diante dos acontecimentos recentes, não se tome simplesmente qualquer ação, mas sim se tome uma ação a mais condizente possível com aquilo que o desdobramento atual das coisas exige – o que, por sua vez, exige abertura, diálogo, reflexão.

No entanto,  sem querer em nenhum momento diminuir a importância dessa lado negativo da indecisão dos ocupantes, gostaria de enfatizar nesse texto o que considero ser o seu lado positivo.

Isso porque entendo que, se os ocupantes têm de fato essa indecisão sobre o que fazer, isso se deveria não ao fato de não saberem o que querem, mas sim àquilo que querem não poder ser submetido à cisão de uma decisão. Em outras palavras, não é que os ocupantes não saibam o que querem; é que aquilo que querem não permite qualquer escolha exclusiva: entre uma coisa e outra, o que nós, ocupantes e simpatizantes da ocupação, queremos, é ambas – e não há a possibilidade de ter que decidir por apenas uma ou outra. O que queremos é demais para que tenhamos que escolher. E, se queremos tanto, é porque não acreditamos mais nas falsas dicotomias que por tanto tempo organizaram a política, forçando-nos a decidir entre uma coisa ou outra quando não há por que não se possa – não se deva – exigir ambas, exigir todas. O que queremos é indecidível não porque não sabemos o que queremos, mas porque ultrapassa os ditames da escolha, ao menos na medida em que essa exigir que algo seja excluído.  Não acreditamos que haja uma oposição  entre diversas reivindicações igualmente legítimas tal que nos forçaria a escolher, decidir entre uma ou outra delas – antes, partimos do princípio de que todas reivindicações legítimas são compatíveis entre si. Antes de julgarmos ser necessário ter que escolher algumas dentre elas, julgamos que qualquer escolha desse tipo é impossível, porque todas elas são igualmente essenciais e, precisamente enquanto tal, não podem ser mutuamente exclusivas. Frente à necessidade de escolher entre uma reivindicação ou outra, escolhemos sempre ambas. Não que por isso julguemos que todas possam ser simultânea e igualmente satisfeitas, ou que acreditemos ser impossível organizá-las em prioridades e de acordo com os meios à disposição para efetivá-las; apenas não acreditamos que qualquer escolha definitiva entre elas deva ou sequer possa ser feita, como se levar adiante uma delas impossibilitasse absolutamente e para todo o sempre levar adiante outra ou outras.  Não é que acreditemos todas as reivindicações legítimas possam ser igualmente, pelos mesmos meios, com a mesma facilidade, ao mesmo tempo, efetivadas; apenas acreditamos que a efetivação de uma reivindicação legítima jamais impossibilita a efetivação de qualquer outra do mesmo gênero; por isso, não precisamos decidir entre elas. Não precisamos, em suma, nos satisfazer com pouco, nos satisfazer com o insatisfatório, precisamente porque não dá conta de todas reivindicações igualmente justas e por isso mesmo necessárias.

É em parte por isso que não nos contentamos mais com a política organizada a partir de partidos, sendo uma das idéias centrais das ocupações é o de fazer uma política apartidária. Os partidos nos fazem tomar partido, quando não deveria haver nenhuma necessidade para tanto. Eles criam oposições entre as reivindicações de um partido e de outro, as de esquerda e as de direita, e forjam a aparência de que se envolver politicamente implica definir-se pelo lado em que se está, levando-nos a subordinar o juízo sobre a legitimidade de uma reivindicação ao lado de que ela vem – se ela vem de um partido ou de outro, de um de esquerda ou de direita, etc. Acredito, porém, que se queremos uma política apartidária, isso se deve consideravelmente ao fato de intuirmos que essa lógica do antagonismo, promovida pela organização partidária da política, não é capaz de estruturar uma política que possa satisfazer nossas demandas por um mundo mais democrático e justo. Isso porque essas demandas não tem partido, não se definem por serem de direita ou de esquerda, por serem do interesse de um ou outro grupo particular. Não podemos decidir de que partido somos, porque não estamos interessados no benefício de um ou outro grupo em particular: estamos interessados no benefício de todos. Não podemos nos decidir entre as reivindicações legítimas de um partido ou de outro; lutamos por todas elas. (Não que não possamos conceber apoiar, em um determinado momento, as reivindicações de um ou outro partido, de um ou outro lado; não é que não sejamos capaz de dar razão a um lado e tirá-la do outro em dadas circunstâncias. Mas não acreditamos que apenas um lado possa ter sempre toda razão, e por isso, por mais que possamos apoiar um ou outro lado em certos momentos, não nos definimos como sendo ou estando de um lado ou de outro). E acreditamos que apenas lutando por todas elas o nosso modo de fazer política pode mudar e dar conta das questões que estão no cerne de nossa crise atual.

Também é em parte por isso que não nos contentamos mais com a democracia representativa: afinal, grande parte daquilo em que ela se apoia seria o pressuposto de que a sociedade, tal como é atualmente, só pode suportar um regime democrático se este for representativo. Em outras palavras, é como se fosse necessário uma escolha: ou temos uma democracia que pode ‘funcionar’, por mais artificialmente que seja, na sociedade que temos – e essa democracia ‘só poderia ser’ a representativa – ou temos uma democracia direta, real, em que todos participem diretamente das decisões importantes sobre o rumo de seu país mas a qual, entretanto, não seria funcional. Ora, é a necessidade dessa escolha, dessa decisão que questionamos: não acreditamos mais que a democracia, para ‘funcionar’, tenha que ser representativa, e não acreditamos que o modo pelo qual a democracia representativa ‘funciona’ (ou tem funcionado) nos seja satisfatório; antes, vemos no seu modo de ‘funcionar’ um dos motivos centrais dos recentes acontecimentos e da crise que eles geraram. Nos perguntam o que preferimos: uma democracia direta, ou uma democracia possível. Dizemos, por nossa vez, que a democracia direta é possível, que não podemos decidir entre uma democracia direta e uma democracia possível porque querermos uma democracia direta e possível. Não acreditamos mais na dicotomia entre o ideal e o real,  ao menos no sentido de que não acreditamos que a qualquer ideal verdadeiro esteja barrada para sempre a realidade, como se o que estivesse em questão aqui fosse uma oposição absoluta entre o real e ideal, e não uma oposição meramente relativa, na qual o ideal só o é porque não é nossa realidade atual, ainda não se tornou nossa realidade, ainda não encontrou nela as condições necessárias para se efetivar. Em outras palavras, acreditamos que a democracia direta não é mera utopia, um ideal vazio que está em contradição com qualquer tipo de realidade: antes, acreditamos que é algo que pode se tornar real, caso as condições necessárias para tanto lhe sejam fornecidas; e buscamos, precisamente, lutar para criar essas condições.

Por fim, é por isso que, ao meu ver, é preciso lutar por uma política do indecidível.  Por tal política não entendo uma que não tome decisões sobre o que fazer, mas sim uma cujo objeto, cujo fim seja indecidível, no sentido de não se submeter a nenhuma cisão. Estamos cansados da política do menor dos males,  que nos dá opções diferentes e, porém, igualmente insatisfatórias. Estamos cansados da política minimalista, que abdica de fazer o que deve e se resigna a fazer o que pode. Queremos uma política que desfaça a ilusão do menor dos males, que não acredite que o seu modus operandi esteja enclausurado na escolha entre alternativas igualmente insuficientes para dar conta de seu objeto. Não que acreditemos que a estratégia do ‘menor dos males’ deva ser completamente abolida; reconhecemos a sua necessidade. Porém, a reconhecemos enquanto uma necessidade circunstancial. O que significa, em outras palavras, que embora reconheçamos a necessidade de nos valermos dela em determinados momentos, jamais aceitaríamos nos contentar com ela. Ainda que essa estratégia seja necessária à política, ela não deve se pautar por ela. Se em alguns momentos uma escolha do menor dos males é necessária, acreditamos, porém, que essa escolha pode ser superada – por isso ela é sempre circunstancial, e nunca um impedimento absoluto de que não se tenha que escolher entre opções igualmente insatisfatórias, de que se possa realizar o que ambas são capazes de realizar e também aquilo que falta a cada uma delas.

Por isso, estamos cansados da política que se contenta com a sua própria insuficiência e que a naturaliza, a que se julga política precisamente porque faz o que pode, e não o que deve. Não que esperemos uma política do fim da história, que fosse capaz de realizar, de uma vez por todas e para todo o sempre, aquilo que deve. Só não nos contentamos com uma política que se contenta em fazer o que pode, que se acredita sempre incapaz de fazer o que deve,  que acredita que aquilo que se deve é sempre inalcançável. Queremos uma política que não parta do princípio de que é preciso fazer o que se pode, mas sim que parta do princípio de que é preciso lutar até o fim para se fazer aquilo que se deve.

Queremos, por fim, uma política que não recorra à retórica da cisão, pela qual aceitamos que aquilo que temos nunca seja o suficiente. Queremos o indivíduo ou o coletivo? Queremos o indivíduo e o coletivo, não podemos escolher um em detrimento do outro, não caímos no truque de ter que decidir qual seria o menor dos males,  submeter o indivíduo ao coletivo ou o coletivo ao indivíduo. (E não estaria essa idéia mesma no cerne da idéia de democracia? Que não se pode escolher entre indivíduo e coletivo, que o indivíduo não pode ser reduzido ao coletivo – um cidadão, um voto – e que o coletivo não pode ser reduzido a nenhum de seus indivíduos, mas deva ser um produto de todos eles juntos?). Queremos segurança ou tolerância? Queremos segurança e tolerância, não porque acreditamos que essas reivindicações não podem ser realizadas separadamente, mas sim porque cada uma delas perde o seu valor se a realização de uma implicar necessariamente na exclusão da outra. Queremos uma política dos bravos, uma política que acredite no seu próprio potencial de realizar o seu objeto, que não acredite em cisões insuperáveis de seu objeto, submetendo-se assim à decisão por uma ou outra de suas partes e à exclusão da(s) outra(s). Queremos uma política que abrace o objeto político em sua indecidibilidade, e que acredite na sua própria capacidade de realizar seu objeto em sua indecidibilidade característica, em sua unidade, em sua completude, na ausência de cisões de sua indecisão.

Sendo assim, repito: não é que os ocupantes não saibam o que querem. É que a natureza daquilo que querem não se submete a escolhas fáceis, não se submete a escolhas exclusivas, e por isso não pode ser transposto imediatamente para a realidade, para a concretude de uma proposta. Não é que os manifestantes não se decidem sobre o que querem, mas sim que a natureza indecidível daquilo que querem torna difícil decidir o que fazer. E isso não apenas porque essa natureza indecidível do que querem não permite uma transposição imediata para uma proposta concreta, mas também porque os meios para se fazer tal transposição são escassos, para não dizer ainda inexistentes. Não temos ainda esses meios à nossa disposição; e é precisamente por isso que precisamos criá-los com as nossas próprias mãos. Em outras palavras e para concluir: o nosso modo atual de fazer política não nos fornece meios para construirmos propostas capazes de darem conta de nossas reivindicações; por isso, antes de qualquer coisa, é preciso construirmos um novo modo de fazer política, uma política do indecidível, para que tenhamos esses meios. E, da forma que compreendo, é precisamente esse novo modo de fazer política que os ocupantes em todo o mundo estão tentando, com as suas próprias mãos, construir.

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8 pensamentos sobre “Sobre a indecisão dos movimentos de ocupação

  1. igorius2011 disse:

    Cara, excelente ! Tenho um texto em meu blog muito parecido com esse:

    http://temalguemaifora.wordpress.com/2011/11/08/occupy-world-o-que-nos-queremos-afinal-%e2%80%93-um-comeco-de-conversa/

    Concordo que essa “indecisão” tem um lado positivo ENORME, é o espaço limpo onde novas coisas serão construidas ! Parabensa pelo texto !!!

    • opassodosim disse:

      Cara, brigadão, mesmo, pelas palavras!!! 🙂 Me deixa muito feliz ver que tem pessoas que pensam de maneira semelhante, e que acreditam ser possível pensar e construir algo novo a partir de tudo que está acontecendo! Vou comentar o seu texto no seu blog, por julgar ser mais apropriado, hehehe. =pp

  2. Paulo Rhamires disse:

    Que Maravilha, enfim estamos chegando a “ressurreição”, sim, pois estivemos nos fazendo de mortos balançando a cabeça nas filas de pão, do cinema americano pra se distrair…; mas, eu sempre acreditei que nos corações deste povo crescia uma força imbatível ,que mudaria este paradigma (difícil) moral, que determinava quem era bom e quem era bonito e portanto seria feliz e do contrário, não. Sinto enorme disposição para este movimento que aos poucos se organiza. eu tô dentro! Entre no Youtube e ouça minhas musicas elas falam deste momento e deste sentimento que vem nos acompanhando já a uns 20 anos ou mais…Parabens a Nós que estamos lutando por um mundo melhor!

  3. Rogério Fraiha Araújo disse:

    Parabéns pelas palavras

  4. Fernando F. disse:

    Ótimo texto, reflete exatamente o que eu tento explicar às pessoas que parecem estar acostumadas com o pré-concebido. Acho que é difícil para elas aceitar a construção da política a partir de suas próprias mãos. Mas não seria o que está acontecendo na Islândia, por exemplo? Trata-se de uma reação em cadeia, e não tem como conter… Escrevi um relato com minha opinião sobre o papel da não-violência neste mister. Talvez você possa gostar: http://ocupario.org/2011/11/15/quando-as-buscas-individuais-se-encontram-em-uma-praca/

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