Uma proposta para o ocupa sampa: rotatividade dos locais de ocupação

Dada as sugestões feitas recentemente no ocupa sampa, devido a possibilidade de ação policial, me ocorreu uma idéia que talvez fosse bastante interessante para a articulação do movimento e mesmo para amenizar esse tipo de problema e confronto.
O acampa sampa se mudou do Anhangabaú para a Paulista. Nisso, mostrou, assim como outras ocupações, que esse movimento não é dependente de nenhum lugar fixo. Talvez essa independência devesse ser explorada mais sistematicamente, e por isso, gostaria de propor que as mudanças de local não fossem meramente circunstanciais, dependendo de um ou outro fator momentâneo, mas que fossem incorporadas ao próprio movimento: gostaria de propor, em outras palavras, que houvesse uma rotatividade permanente dos locais ocupados pelo ocupa sampa.

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Sobre a indecisão dos movimentos de ocupação

Uma das críticas mais frequentes aos movimentos de ocupação que tem surgido por todo o mundo é a de que os manifestantes ‘não sabem o que querem’.  Rebeldes sem causa, reivindicando mudanças sem terem propostas de como fazê-las, os ocupantes teriam sido frequentemente recebidos com irritação e impaciência por aqueles que, diante da indecisão desses manifestantes sobre o que, afinal, eles querem que seja feito, desejariam que eles simplesmente decidissem de uma vez o que fazer.

Contra esse tipo de crítica, já se apontou de diversos modos como essa indecisão, em seu aspecto negativo, isso é, no sentido de não se decidir de imediato sobre aquilo que deve ser feito, é produtiva e essencial em uma série de maneiras. Com efeito, seria ela que permitiria um debate verdadeiramente honesto, uma discussão aberta a novas idéias e possibilidades, que não fosse determinada por pressupostos e preconceitos que se colocariam para além de toda crítica, de todo teste por meio de sua tematização e problematização em um diálogo aberto. Essa indecisão, mesmo em seu aspecto negativo (de não se decidir sobre o que se quer fazer),  não seria negativa (no sentido de ser algo ruim, prejudicial). Muito pelo contrário, essa indeterminação seria fundamental para que, por fim, fosse possível uma política honesta, que não se pautasse por pressupostos ou preconceitos, por idéias ou proposições pré-definidas ou propostas precipitadamente, antes de serem séria e consequentemente avaliadas e debatidas. O fundamental agora não seria tomar uma ação o mais rápido possível; antes, seria tomá-la da melhor maneira possível. Por isso, a prioridade não é ter uma proposta – antes, é a qualidade (poderíamos dizer também, a legitimidade) da proposta que se constrói. Ou, colocado de outra forma: o que importa não é ter uma proposta, mas sim ter uma proposta satisfatória. Dentro desse ponto de vista, parece até mesmo  absurdo mobilizar-se em torno de uma proposta, baseando-se mais na crença nela do que no fato dela ter resultado de um debate extensivo daqueles que se mobilizam em torno dela. Sendo assim, a indecisão desses ocupantes  sobre o que fazer seria essencial para que, diante dos acontecimentos recentes, não se tome simplesmente qualquer ação, mas sim se tome uma ação a mais condizente possível com aquilo que o desdobramento atual das coisas exige – o que, por sua vez, exige abertura, diálogo, reflexão.

No entanto,  sem querer em nenhum momento diminuir a importância dessa lado negativo da indecisão dos ocupantes, gostaria de enfatizar nesse texto o que considero ser o seu lado positivo.

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